06 dezembro, 2011

Rio de Janeiro aposta no toque feminino para conquistar comunidades

 

Formada em 2008, ela entrou para a PM antes de a primeira favela ser pacificada

"Nunca me vi trabalhando sentada, em meio a papéis. Sempre quis ser militar", conta Rosana Gomes Batista, enquanto balança um bebê que foi parar em seu colo durante a visita de uma equipe de policiais da UPP da Mangueira ao setor mais carente da comunidade. A soldado faz barulhos com a boca, cócegas e mais cócegas, dá beijinhos e acaba arrancando gargalhadas desdentadas do pequeno.

Rosana conta que quando chegou ali, há três semanas, o bebê estava abandonado, sob os cuidados do irmão de seis anos de idade. Ela e alguns de seus colegas chamaram a mãe para uma conversa. Disseram que se isso voltasse a ocorrer ela acabaria perdendo a guarda dos filhos. A repreensão parece ter funcionado. A mãe estava lá desta vez.

Segundo a policial, que não tem filhos, o carinho com a criança é natural e também vem de treinamento. Rosana faz parte de um grupo de PMs recém formados para atuar em áreas pacificadas no Rio. E faz parte de um grupo ainda seleto, mas que está crescendo justamente por mostrar eficiência no policiamento de proximidade, o de mulheres PMs. No último concurso para a Polícia Militar, das 7 mil vagas oferecidas, mil foram para mulheres. Uma porcentagem de 14,2%, muito maior do que os 7,5% da relação total de mulheres empregadas na instituição.

"Ser mulher ajuda. Em uma aproximação mais comunitária a mulher tem essa vantagem. Já é natural ser mais simpática, principalmente com as crianças, que se aproximam mais da gente do que dos homens", explica a sub-comandante da UPP Mangueira/Tuiti, a tenente Tatiana Lima, que tem o maior efetivo de mulheres entre as UPPs (64). Formada no corpo de oficiais em 2008, ela entrou para a PM antes mesmo de a primeira favela ter sido ocupada para a pacificação. No entanto, Tatiana afirma que carregava desde o início a função comunitária. "Gentileza gera gentileza, diz o profeta. Por que o policial, na sua abordagem, não poderia ser mais humano?", indaga a tenente.

A sub-comandante já é conhecida nas ruas da Mangueira. As pessoas, principalmente crianças, param para falar com ela. Tatiana retribui sorrisos, brinca, demonstra carinho. Em nome da conquista de mentes e corações, a policial aceitou até mesmo o convite para cantar em um show de música gospel promovido por um grupo no local onde há maior resistência da cultura do tráfico na comunidade, a rua conhecida como "Buraco Quente", perto de onde vivia o ex-dono do tráfico na Mangueira, Alexander Mendes da Silva, o Polegar, que foi preso em outubro no Paraguai.

"Não é ser celebridade. Mas quero chegar ao ponto de poder ser uma referência para os moradores, sim. Servir de exemplo. Poder ser alguém que eles confiem e ser alguém com quem eles possam contar se tiverem algum problema", diz Tatiana.

Ao invés de preconceito, a policial sente que as pessoas, principalmente as mulheres da comunidade, demonstram admiração: "Elas me veem com olhar diferente por eu ser mulher e por estar em uma posição de comando. Uma mãe já me parou e disse que eu era motivo de orgulho para as mulheres daqui. Isso é muito bom. Principalmente para mim, que sou mulher, ver esse reconhecimento".

A nova abordagem parece estar encorajando as mulheres e as fazendo vencer o medo de entrar para a polícia em um lugar onde os policiais normalmente tomam cuidado para não serem identificados quando não estão em serviço e, por motivos de segurança, não comentam muito sobre a profissão com vizinhos e não deixam distintivos e documentos a mostra. O último concurso teve 16.441 inscritas para mil vagas. Tatiana conta que seus pais, apesar de lhe darem apoio, temiam que alguma coisa pudesse acontecer quando ela entrou para a corporação. Com o passar do tempo isso mudou. "Medo todo mundo tem, não tem jeito. Mas eu acredito que o Rio está passando hoje por uma fase de pacificação. Minha mãe se sente confortável por isso. O jornal que ela lê mostra notícias diferentes do que mostrava antes", afirma.

Outro aspecto que tem feito mulheres carregarem fuzis e passarem por treinamento com uma rotina diária de exercícios "igual a dos homens" que envolve atirar, pular muros e rastejar é a oportunidade de aplicar diferentes conhecimentos juntamente com a carreira militar. "Tem uma gama muito grande de pessoas formadas com curso superior fazendo o curso. Na minha turma tinha dentista, advogado, pedagogo", conta a soldado Caroline dos Santos e Silva, 24 anos. Formada em educação física, ela enxergou na UPP uma chance de colocar seu conhecimento em prática e quer promover atividades de esporte inclusivas para afastar jovens e crianças do ócio. "Tem muita gente sem fazer nada aqui. Você olha as crianças na rua o dia inteiro. A mãe trabalha e as crianças ficam largadas", relata Caroline.

Mulheres ajudam na aplicação da lei Maria da Penha


Vencer a desconfiança dos moradores envolve combater os conceitos acumulados em décadas de relação conflituosa com a polícia. A soldado Michele Andrade Schaffer Moreira, 30 anos, acredita estar vivendo um momento especial na Polícia Militar. Segundo ela, os princípios de direitos humanos passaram a ser vinculados à formação na academia. "Hoje nos ensinam somente o que é certo. Tratar o cidadão com dignidade e não julgando pelo ato que ele cometeu. Nós não somos juízes. Não temos o direito de agredir um cidadão, independente de ele ter roubado, de ter agredido ou de ter violentado uma pessoa. Temos que encaminhá-lo para responder perante a lei", aponta Michele. Ela é integrante da UPP do Morro dos Macacos. A unidade tem um contingente de 40 PMs mulheres para um efetivo total de 227 policiais.

Sua colega, a soldado Drieli Abedissan Rodrigues, 23 anos, retornou recentemente de um seminário em Honduras, onde apresentou uma palestra sobre a Lei Maria da Penha. Drieli também vê oportunidade de colocar em prática na polícia o conhecimento adquirido em sua formação como pedagoga. Segundo ela, os casos de agressão e ameaça contra a mulher são os crimes que ocorrem com maior frequência na comunidade. "Antigamente esses problemas deviam ter uma outra forma de resolução aqui dentro (do Morro dos Macacos). Agora elas trazem para a gente, o que é muito importante. É uma coisa que sempre existiu e agora a gente consegue enxergar o retrato dessa violência", diz Drieli. Para ela, o fato de haver mulheres no policiamento torna a UPP mais receptiva para receber denúncias e encaminhar as vítimas para auxílio.

Presente desde a inauguração da UPP dos Macacos, em novembro de 2010, a soldado Ana Paula Severo da Silva, 31 anos, já vê seu trabalho recompensado. "A primeira etapa era a mais difícil. Uma criança que sem a nossa presença seguiria os passos do pessoal que comandava antes, agora tem a oportunidade de seguir um caminho diferente. Hoje o exemplo é outro. Porque a criançada admira o nosso trabalho", comemora Ana Paula.

A sub-comandante já é conhecida nas ruas da MangueiraPolicial aceitou até mesmo o convite para cantar em um show de música gospelEm vez de preconceito, a policial sente que as pessoas, principalmente as mulheres da comunidade, demonstram admiraçãoMulheres têm conquistado espaço dentro da Polícia Militar do RioPolicial troca passes com criança da comunidadeRotina diária de exercícios é a mesma da tropa masculina envolve atirar, pular muros e rastejarSegundo Tatiana, gentileza gera gentileza e o policial deve ser humano na hora da abordagemTatiana atua em área pacificada no Rio de JaneiroTatiana brinca com uma bola de futebol junto a colegas de trabalhoTatiana diz que mulheres a veem com olhar diferenteTatiana diz querer ser referência aos moradoresTatiana é bem recebida entre crianças de escola municipalTatiana Lima é sub-comandante da unidade MangueiraTuiti, que tem o maior efetivo de mulheres entre as UPPs 64Último concurso da PM teve 16.441 mulheres inscritas para mil vagas

Fonte: Terra